O GALÃ VENDEDOR DE ACAÇÁ
Meu amigo Tatay, colaborador deste blog, me contou um dia desse uma das muitas estórias que ouviu contar sobre um conhecido de sua família e que pela espiritualidade do mesmo achei interessante e aqui reproduzo para conhecimento dos meus leitores.
Yoyô, como era conhecido, era figura arreliada, como se dizia daqueles tempos. O sujeito tinha sempre um gracejo e astúcia para provocar risos nos que lhe assistiam. Entre as qualidades do Yoyô uma se destacava: não tinha vocação para viver de emprego fixo. Assim, sua vida era um rosário de estórias e situações engraçadas que ele criava sempre para tirar algum proveito e dessa maneira ir levando a vida na valsa.
Ele dizia que sua imaginação nunca lhe deixou na mão e dessa forma sobrevivia da sua astúcia. Experimentou de tudo e vivendo de pouso em pouso aprendeu como é preciso ter malícia para sobreviver uma vez que não aturava ter patrão.
Certa feita, residia o Yoyô em Salvador e sem meios de sobrevivência aceitou ser vendedor de acaçá, ocupação que lhe obrigava sair pelas ruas do centro de Salvador, com tabuleiro na cabeça, vendendo seu produto e dessa forma ia ganhando que dava para comer.
Um belo dia soube que um cidadão morreu repentinamente e deixou um guarda roupa respeitável. Não pensou duas vezes. Procurou a família do falecido que lhe doou alguns ternos, todos em boas condições de uso. Como o nosso Yoyô era tirado a cantor, bom de papo e boa pinta apesar de narigudo, às vezes deixava o tabuleiro dos acaçás e trajava-se para ir ao centro de Salvador passear. Nessa época a venda de acaçás passou a ser só pela manhã, pois, à tarde era só passeios com os ternos que ganhou do defunto.
Numa tarde de primavera, desfilava na Rua Chile, todo elegantemente de terno e gravata, sapato da moda quando deu de cara com Valdelice, jovem professora, solteira em ponto de casar, simpática, um anjo. Foi amor à primeira vista. Formou um namoro com a simpática professorinha e apresentou-se como Ten. Telegrafista do navio Almirante Barroso que estava em visita à Capital Salvador. Por alguns dias encontrou-se com a mocinha e firmou a amizade evitando sempre que podia desviar a dos convites que a moça lhe fazia para ir conhecer sua família. .
Pois bem, certo dia bem cedo, como precisava trabalhar para poder ter o que comer, pegou seu tabuleiro de acaçá e foi pra Baixa dos Sapateiros seu trecho de venda preferido. Mas, como Deus protege os inocentes e escreve certo por linhas tortas, o sortudo tenente ia mercando seis acaçás quando de repente sai de uma loja a simpática Valdelice. Foi o maior susto e o tabuleiro de acaçás que trazia na cabeça esparramou-se pelo chão e nosso amigo Yoyô esbaforido sumiu na multidão. Desceu o Taboão e foi direto para a Baiana pegando o navio com destino a nossa Maragogipe, nunca mais o tenente telegrafista voltou a Salvador.
Certo é que, depois dessa, o nosso Yoyô, também conhecido pelo apelido de “Jorge Veiga”, pois imitava o cantor nas horas necessárias, nunca mais voltou a Salvador colocando um ponto final no casamento que já estava encaminhado com o Ten. Telegrafista.
Foi isso mesmo,Tatay?
Por Abílio Ubiratan
Out2025/BJ

